domingo, 31 de maio de 2020

Moça

                         

  Poema épico escrito entre os dias 26 e 28 de maio de 2020.


Estatística: 11 páginas
                   1116 palavras
                   5290 caracteres sem espaço
                   6098 com espaço
                   325 parágrafos
                   469 linhas




Moça


Moça
Do sorriso doce (da feira)
De caminhar leve como o vento
E de olhar tranquilo
Como um sono bom.    

Moça que eu vi passar
Vestido de fino tecido esvoaçante
De colorido simples
Cobrindo vigorosas formas.

Ver-te assim
Tão solta quanto seus cabelos
Faz pensar que povoas sonhos
Exilando seus pesadelos

Ao caminhares pela rua
Em qualquer dia ou direção
Segues a linha do destino
Que atará seu coração

A outro maior talvez
Se sorte tiveres de ser feliz
Ou ao abismo da solidão
Como eu um dia fiz.

Ah coração!
Se apenas um caminho tivesses!
Sem encruzilhadas
Numa só direção...
Se não tivesses asas
E nem uma ilusão...
Serias o abrigo do amor.
Do amor a dois
Belo agora e depois
Inquestionável
Inabalável
Incomparável
Cômodo e correto
O amor a dois, completo!
Com alianças e afeto
Álbum de fotografia
Porta retrato
Futuro certo
Como dois e dois são quatro
Como oásis no deserto.

Sim, existe o desvio,
Às vezes escuro e frio
Às vezes cheio de luz
São infinitos os caminhos
Multiformes os sinais
Descompassadas as emoções

A solidão não é desamor
É amor demais, talvez...
Fragmentado, fracionado
Subdividido
Com valor alterado
Que as regras não comportam
Da matemática
A valiosa vírgula mutante
Do português
A longa reticência
E como se mede o amor
Usando a tão vasta ciência?

O amor de um coração sozinho
Que segue em frente
Ao longo do caminho
Que sabe o tempo
O sempre e o nunca
Conhece do chão
As pedras e as sementes
E que se alegra na chuva que cai.

O coração sozinho
Alterna entre céu e ninho
Abre-se como raio de sol
De luz, calor e vida.
Em delírio
Encontra a chuva
Paixão
Alucinação multicolorida
Que encanta, inspira,
E se desfaz no ar
Sem deixar marcas
Iris a desbotar

Diante da midríase
Da realidade do olhar
Do jogo de luz e sombra
Do mito da caverna de Platão
Reconhecer-se nas pedras
Apenas projeção
De sentimentos e sentidos
Em reflexos de solidão

O coração sozinho
Trilha e cruza caminhos
Cruza outros como ele
Completamente sem rumo
Sem eira, beira ou prumo.
Contrastando em solidez
Solitude
Solidão
Incompletos, desconexos,
Seguem em outra direção
Nunca chegam
Nunca param
Nunca cumprem a missão
Não comparecem à missa
Fogem ao amém
Fazem à sua maneira
A maneira do além
Em frente é a direção
Não têm lado
Para terem ao lado um alguém
Um coração sozinho
É de todos e de ninguém.

Coração
Abrigo de sentimentos
Da dor que os olhos veem
Absorvem a todo o momento
Concentram-se na luz
Choram por dentro

Ao verem o mundo cão
Agonizando sem salvação

Não é a bomba o único terror
O medo nasce bem cedo
O fogo do inferno incendeia florestas
A ambição cega alimenta a dor
Devoram-se os homens
Enquanto os rios morrem
Secos, sujos, desviados e invadidos.
O ar agora é veneno
Que as chaminés às nuvens anunciam
E a sirene move o homem
A máquina humana contra o vazio
Do bolso e da alma
Do fundo do prato que não traz calma
Ah! A fome!
O mal maior do homem
Que com ele acaba

As lentes trouxeram registros
De um mundo longe do nosso
Onde em vez de sorrisos
Os homens exibem ossos
Têm olhos esbugalhados
Misto de esperança e dor
Almas doloridas e secas
Pele estranha e sem cor.

A indiferença
A distância
A ausência
A ignorância
O egoísmo
A ambição
O capitalismo
A crença
A maldição
Tudo isso na mesma foto
No fato
Na visão
Na mentirosa e falsa proteção
Estamos imunes a isso?
Ah, não estamos, não!
Não
Somos culpados
Cúmplices e sem noção.
Irresponsáveis
Sem coração
Somos desumanos
Não irmãos
Monstruosos
Terríveis
Covardes
Estamos longe da evolução
Primitivos
Primatas
Raça de cão
Crueldade sagaz
Somos a condenação
Tudo o que deu errado
O pior
O não!

A raça humana é a vergonha do planeta
Estúpida
Cega
Devastadora
Animal
A raça humana é  proliferação do mal
Em conceito de superior
Em conceito de igual
Em conceito de errado e certo
Em conceito de normal
Aceita seu próprio ódio
Como coisa natural
Odeia
Odeia e mata
Primata
Animal

O homem segue o caminho
Caminho de sangue
Sangue e dor
Dor de tortura e morte
Crucificação do único amor
Do Deus humanizado
Carne, sangue e dor.
Mas há vida além da morte
Ressurreição
Quer você queira
Quer não

Onde termina a escolha
E vem a perfeita lição
Quantos fizeram o bem?
Uma rara exceção
Só esses e apenas esses
Somente esses saberão!

Sabe-se hoje da vida
Da modernidade e sua tensão
Da tecnologia que reina
Da exigente evolução
Do homem que vai a lua
Explora Marte em expedição
Lança satélites
Atravessa nebulosa
Enumera constelação
Desvenda a rota da Terra
Desconhece seu coração
Teme olhar para si mesmo
Assombra-se com seu irmão
Perde-se no abismo da alma
No vazio da contradição.

Contra o mal
Caminha a moça
Segue a linha do destino
Emaranhando sentimentos
Tecendo sentidos
Emoções
Que com o passar dos dias
Passo a passo
Passam...

A moça agora saiu de cena
Foi pra casa
Mas não descansa
Em seu oficio
Viaja o mundo
Escreve páginas
Dança!

Condicionada aos bastidores
Aprimora o espetáculo
O público é seleto
O resultado imediato
Enquanto o mundo lá fora
Sofre a maior transformação

O mundo hoje chora
Isola-se
Há confusão
Homens perdidos
Mutilados
Devastou-se a multidão
No império da inutilidade
Do descontrole
Da contradição

Portas fechadas
Covas abertas
Olhos atentos
Destruição

Hoje o orgulho caiu por terra
Não foi a guerra
Nem o canhão

A semente das escolhas
Brotou em condenação
Alterou valores
Comportamentos
Revisou a rota
Abriu a contramão

Invisibilizou-se feroz
Minimizou a existência
Em sobrevivência
Em simples permanência
Em nós.

Desfez-se assim toda aparência
Em duas camadas de tecido
Cobrindo o rosto em proteção
Aquém das grades que é seu reinado
Sua casa
Ocasião
Em que tudo foi revisto,
Refeito
Reconhecido
Redescoberto
Reinventado
Onde a ostentação
Deu lugar aos joelhos dobrados
Onde a oração se revelou
Um tempo presente
Que altera o passado
Que é de luz
Luto e dor
Um tempo novo
Inusitado
Que não se sabe se vai passar
Que segue rugindo e estremecendo
De maneira bruta e singular
Que a todos atormenta
Assusta
Assombra
Assola
Estar vivo nos consola
Para os feridos consolar
Mais partidas que chegadas
Mais pra ir que pra ficar.

E os gráficos infelizes
Não sabem como registrar
A humanidade chora
Sobrevivamos pra contar!

O plano não nos pertence
Nem o roteiro ele nos dá
Enquanto Deus nos dirigir
A vida prosseguirá

Grandeza e poder
Justiças a Deus pertencem
Esse tempo não é nosso
Aqui estamos
Simplesmente

Caminhando
Vivendo
Aprendendo intensamente
Se há aqui amor
Amemos
Infinitamente!



Hyeda de Miranda Campos  28. 05.2020                           16:40










segunda-feira, 11 de março de 2019

Aguiar



Aguiar

E lá vem o destemido jovem
Cavalgando:
Afrânio Justiniano

Quando Guanhães os rejeitou...
Sabinópolis os recebeu!!!
E quem sabe o que quer da vida
Sabe a direção do vento
Faz o caminho da tropa!

Tropeiro
Senhor da tropa
Desbravador!

Pelo caminho de pedras
Uma flor
Violeta
Amor!

Violeta não esteve na janela
A enfeitar, a sonhar sonhos de menina.
Violeta floresceu rapidamente
Mudou de terra sem perder as raízes
De um antepassado histórico negro e índio!
Agora se misturando a uma raça branca e imponente.
Resultado: GENTE!

Transportados para a nova terra
´idice e jadir
Esperando a chegada de Valdir.
Aldo
Ruth
Neuza
Dinorah
Albina
Carlita
Élcio
Hilma
Cácio
Graciola
Leda

E como num conto de fadas
Na terra encantada
Na fazenda Vista Alegre
Viveram e se alegraram por muitos anos!

Cresceram e se multiplicaram.
E aqui estamos nós: PRiMOS!
Forte é o elo que nos une!
As lembranças que nos apertam os nós e enchem os olhos de água!

E a fazenda Vista Alegre se alegra em nós
Revive
Floresce
Traz flor, Violeta, nossa flor!
De mãos para traz, e arrastando a conga azul clara.
Seus óculos de lentes grossas que tudo viam
Desde o bicho de pé retirado com o punhal
Até a medida da farinha cozida no copo de alumínio.
Flor que para todos os males tinha um remédio
Uma simpatia,
Homeopatia, quem diria!
Ah vovó doutora
Sarai-nos todos os dias!

Afrânio homem de negócios
Que tirou da terra o sustento para tantos
E ensinou a todos: honestidade e trabalho.
Que Deus o tenha com seu humor
Seu amor, vovô, é de tirar o chapéu.
Sua força e seu carinho estão  em todos nós
Até o reencontro no céu!

Mas este não é um poema para nos fazer chorar
Recordações são preciosas
Felizes
E só vou prosseguir se cada um sorrir:

Atire a primeira pedra
Quem nunca caiu do balanço no pé de jatobá.
Quem nunca trapaceou na divisão da jaca
Quem nunca pegou piolho de galinha no pé de ameixa???
Nunca passou aperto na porta da casinha
Que parecia longe demais para a pressa com que vinha a necessidade...
Quem não se lembra do balaio de sabugo...
Das lamparinas? Que deixavam negros pavios no nariz...
Quem nunca correu do louro?
Ou do estalar do chicote que era para os gatos?
Quem nunca subiu no caixote de rapadura, se achando grande?
Quão curioso era o quarto da Tia Lica... só dela!
Quem não roubou biscoito de goma da tia Bininha?
Riu com ela o dia todo e morreu de medo do ronco dela a noite?
Quem?
Quem não petiscou massa de queijo na banca e nem comeu sal grosso, escondidinho?
Quem nunca teve medo dos casos de assombração na fogueira?
E quem nunca dançou ao som da radiola de pilha
Com um só compacto para toda a noite?

Ser feliz é isso!
É ter uma raiz profunda
Uma estrutura forte
E frutos perfeitos!
Somos todos de mesma raiz!
O povo que a beleza não esqueceu!
Sim!!! Quando alguém é belo, logo se vê: é Aguiar!!!
O povo de Afrânio é um povo lindo!
É um povo que ama e é feliz.

Uma beleza que envolve histórias diversas.
Uma beleza que inspira a poesia mais doce e sincera
Uma beleza além da visão.
Essa beleza que nos dá asas,
Que nos seduz
Que nos encanta!
Mais que um mistério, é para nós um brasão.
É tesouro
É orgulho:
PAVÃO!

Seu majestoso grito
Seu azul real tão bonito!
Seu leque aberto era a grande atração!
E hoje, não pode ser diferente.
Parte de nós
Da realeza masculina
Da sedução
Do orgulho da raça
Da beleza infinita e misteriosa

Do nosso PAVÃO!


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Vale


Vale, Verde Vale
Canta Vale, canta
E a todo mundo encanta
Traz em sua voz semente
Fecunda o solo fértil
Ao sol nascente

Vale, verde Vale
Rico em vozes e canções
Levei semente ao seio da terra
E florescei os nossos corações

Vale, lindo Vale
Que da humildade do seu povo
Brote algo eterno
Tão forte
Como um sorriso novo

E talvez até chore
Por chuva ou algo mais
E traga em cada gota
O seu nome
Em forma de verde e de paz

Canta Vale, encanta
E faz o verde nascer de novo
De sua voz nascerá riqueza
Dividida entre seu povo

E que seu canto, sua voz
Faça mais que encanto
Faça parte de nós
No encanto ou no pranto

Canta, oh Vale
Para que ouçamos sua voz!


CAMPOS, Hyeda de Miranda
Livro Rosa – 1998
Editora e gráfica Marília

RETRATO MiNEiRO


RETRATO MINEIRO

Minas de montanhas
Sol clareando o céu de anil
Em Minas, Jequitinhonha.
Pedacinho do Brasil.

No Jequi, o meu Rio.
De falar, eu arrepio!
Contornado de verde e amarelo
É bem Vermelho o meu Rio.

O meu povo tem seu jeito
Toda a “matutagem” de gente faceira
Povo de trabalho e respeito
De moda de viola e lua cheia.

Povo que planta e colhe
De fé na vida que os consome
Povo do folclore
De saci e lobisomem.

Povo das artes, dos artesanatos.
Cantiga de roda e moça na janela
“Causos” maiores que fatos
E a vida muito mais bela!

Povo de linguagem simples
Que fala “uai” e “trem”
Os donos do queijo
E da arte de viver bem!

A tranquilidade e a alegria
Da chuva que não cai
Nem de noite, nem de dia.
No curso do Rio se vai.

Vai levando a vida
E a lata d’água na cabeça
Sorrindo o riso banguela
Para que o mal desapareça.

Vai rezar o que aprendeu
Sentir saudade do mato verde
Relembrar o que sofreu
E contar os filhos que teve.

Lendas, contos e “causos”
De uma cultura imortal
Que sobrevive ao descaso
No banquinho de quintal

Essa gente vale ouro
Pedra que não precisa lapidar
Sua cultura é um tesouro
Sem ter guardas pra cuidar

Passa como delicia
No fogão de lenha
Na cantiga de ninar
Passa na raça, no sangue.
Na vontade de lutar

No papel de letras tortas
Que alguém vai encontrar
Sobrevivendo o retrato mineiro
De traços que o tempo não pode apagar.

Corre nas veias do meu Rio Vermelho
Uma enchente de histórias pra contar

Essa gente valorosa
Que o medo nunca viu
Gente mineira do Jequi
Pedacinho do Brasil!